Diego Araúja estreia na prosa literária com SSais, livro que reinventa Salvador fora do cartão postal

Publicado pela Malê Editora, uma das mais influentes na publicação das literaturas negras no Brasil, o livro de contos será lançado no dia 7 de agosto, às 18h, na Casa Malê, durante a programação paralela da FLIPELÔ - Festa Literária Internacional do Pelourinho. Obra recebe elogio de um dos maiores contistas brasileiras na atualidade, o escritor Marcelino Freire: “Um dos livros mais originais de todos os Orixás que eu li”.
O multiartista Diego Araúja, cuja produção transita pelas artes cênicas, artes visuais e outras produções transdisciplinares, estreia na prosa literária com o lançamento de SSAIS, livro de contos publicado pela Malê Editora. O evento acontece no dia 7 de agosto, às 18h, na Casa Malê (na atual Casa da Ponte no Largo do Pelourinho), como parte da programação paralela da FLIPELÔ – Festa Literária Internacional do Pelourinho. A publicação reúne prefácio do poeta, professor e pesquisador Jorge Augusto, autor do premiado Modernismo Negro: A Literatura de Lima Barreto, vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico 2025; e texto de apresentação do premiado escritor Marcelino Freire, vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura por Contos Negreiros.
O SAL DO MAR SOTEROPOLITANO
“O título do livro – SSAIS – é uma tentativa de associar a sigla da metrópole (SSA) ao sal do mar soteropolitano. Queria que fosse, somente, uma palavra; vaga e cheia ao mesmo tempo”, explica Araúja. Nesse sentido, as histórias apresentam Salvador menos como cidade e mais como um território de cruzamentos entre memória, diáspora negra e imaginação. Os contos, ao recusarem as representações turísticas, deslocam as geografias periféricas da condição de margem para afirmá-las como centros de produção de memória, pensamento e criação contemporânea. Em muitas das narrativas, o registro documental e ensaístico, mesclado a um lirismo minimalista, constituem-se enquanto característica central da escrita; aproximando ficção, memória e reflexão crítica. Ao mesmo tempo, o livro estabelece conexões materiais, ancestrais e simbólicas entre Salvador e outros territórios, como o africano e o árabe.
UMA PERIFERIA COSMOPOLITA
No prefácio, Jorge Augusto aponta que a obra constrói um “fluxo de consciência crioula”, inspirado na noção de crioulização do poeta martinicano Édouard Glissant. Para o pesquisador, as narrativas cartografam um amplo “afrorizoma”, no qual diferentes línguas, culturas e formas literárias convergem para constituir uma “periferia cosmopolita”. A combinação entre oralidade, poliglossia, dramaturgia, roteiro cinematográfico e poesia resulta, segundo ele, em um “barroco baiano, periférico e cosmopolita”. Já Marcelino Freire destaca a força performática da escrita de Diego Araúja. “Escrever é performance”, afirma, definindo SSAIS como “um dos livros mais originais de todos os Orixás que eu li”. Para o autor de Contos Negreiros e do recente Escalavra – também finalista do Jabuti 2025 –, a leitura conduz o leitor por uma prosa vertiginosa, “um livro, quando escrito, nos faz andar”. Para ele, essa caminhada, transforma Salvador em uma experiência estética e sensorial em que cada conto ou narrativa surge como espaço expositivo, “Atravessei cada página como se fosse uma sala plástica”. Freire aproxima ainda a escrita de Araúja da tradição experimental de autores como Waly Salomão, Nelson Maca e Alex Simões e conclui: “Diego Araúja é artista coirmão desse tipo de manifesto e de manifestação”.
SOBRE O AUTOR
Primeira obra de ficção de Diego Araúja no campo da prosa, SSAIS amplia para a literatura a pesquisa artística desenvolvida por seu autor ao longo de 15 anos de atuação em diferentes linguagens, reafirmando uma poética marcada pela experimentação formal, pelo diálogo intercultural e pela centralidade das periferias como produtoras de imaginários contemporâneos e críticos. No campo cênico, Araúja foi vencedor do 27º Prêmio Braskem de Teatro da Bahia na “categoria texto”, pela dramaturgia da peça Prontuário da Razão Degenerada. Sua obra cênica, QUASEILHAS, foi uma das vencedoras do 5º Prêmio Leda Maria Martins. Em 2023, criou e expos, em coautoria com a artista Laís Machado, a instalação Sumidouro n.2 – Diáspora Fantasma na 35ª Bienal de São Paulo. No campo acadêmico, Araúja é doutorando do Programa de Pós-graduação em Artes cênicas da UFBA, onde desenvolve uma pesquisa crítica sobre a produção de arte transdisciplinar, o que chama de Poética de Aproximações.
UM TRECHO DO CONTO
“A DESCOBERTA DA AMÉRICA PELAS BENINENSES”
NO LIVRO SSAIS
“Vó Aṣa, também chamada pelos netos, a pulso, de Ìyánláṣa, endereçava o bilhete para, avaliando o cabeçalho, uma “jovem Irene d’Alamilla” – nenhum de nós tem conhecimento de quem seja. Chegou à Cidade da Bahia em 1988, junto à delegação beninense que inaugurou a Casa do Benin – esta, que desfruta do 35º ano de fundação. Aterrissou junto a mainha; que era jovem e tinha à época uns 20 e pouquinhos, e uma barriga de ibeji aos seis meses – eu com 2 anos em seu colo. Minha mãe já orgulhava Ìyánláṣa por fazer, de cabeça, umas contas extravagantes; usando somente, “e somente se”, do abecedário. Voinha morreu aos 83 anos, são dois meses já passados, e nos deixou, aos netos, a pilha de caixas, abarrotadas de certezas aritméticas.” (Trecho do conto “A descoberta da América pelas benineses”, no livro SSAIS).
SERVIÇO:
Lançamento do livro de contos SSAIS, de Diego Araúja
Data: 7 de agosto de 2026
Horário: 18h
Local: Casa Malê – Na atual Casa da Ponte: Largo do Pelourinho, nº 10, Centro Histórico
Editora: Malê Editora
Evento integrante da programação paralela da Festa Literária Internacional do Pelourinho (FLIPELÔ).
📸 Divulgação



